sábado, 22 de janeiro de 2011 | By: "Prisioneiro do seu próprio Mundo"

Depressão: Entrevista

 A depressão afecta cerca de 121 milhões de pessoas em todo o mundo e é uma das principais causas de incapacidade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Nos últimos anos, esta doença tem-se vindo a alastrar cada vez mais pelas diferentes faixas etárias, afectando, especialmente mulheres.
Os indivíduos vítimas de depressão acabam por enfrentar vários problemas, nomeadamente, a nível social. Isto deve-se, em especial, à falta de informação na sociedade e da consequente falta de preparação para lidar com este tipo de doença.
Assim sendo, dificilmente se encontra alguém disposto a compreender as adversidades que os doentes enfrentam diariamente, e até mesmo os que lhes são mais próximos acabam por desistir rapidamente de ajudar.

Segue-se um caso verídico de depressão pós-parto:


1.      Que idade tinha quando surgiu a depressão?
“Já tive várias recaídas e actualmente estou, mais uma vez, com depressão, mas prefiro falar da primeira vez que tive porque foi, definitivamente, a vez que mais me marcou. Isto foi à 17 anos, ou seja, quando eu tinha os meus 21 anos.”

2.      Como é que se apercebeu?
“Eu comecei a chorar com muita frequência,  não conseguia dormir e sentia dores intensas na cabeça, o que era extremamente angustiante dado que o meu emprego não é algo propriamente calmo. Deixei andar cerca de 2 a 3 anos porque pensava que era normal, pois eu havia tido uma criança há pouco tempo, mas como não conseguia aguentar muito mais tempo acabei por ir ao médico de família e ele disse que aquilo que eu tinha já não era depressão, mas sim um esgotamento pós-parto e aconselhou-me ficar algum tempo sem trabalhar. O tempo em que tive de ficar em casa prolongou-se e fiquei praticamente 3 anos de baixa.”

3.      Na sua opinião, acha que alguma situação pela qual tenhas passado condicionou a depressão?
“Ora bem, eu recordo-me que tive de ficar de repouso em casa mesmo antes do bebé nascer, uma vez que, não podia fazer qualquer tipo de esforço. Caso contrário, provavelmente,  teria de abortar (pela segunda vez) . O parto correu normalmente, mas o meu bebé nasceu 1 mês antes da data prevista e, como tal, pesava muito pouco. Quando a criança nasceu, não deu qualquer sinal de vida, tendo-o feito apenas passados 20 minutos após o parto e julgo que isso aconteceu porque a médica e o enfermeiro que estavam presentes nesse momento o colocaram em água fria. Assim que acordou acabou por adormecer e ficou 3 dias sem comer e até mesmo sem abrir os olhos. Tive que ir ao Hospital para ver o que se passava e, nessa mesma noite, tanto eu como a minha filha ficámos internadas durante 2 meses. Eu por causa da depressão e a minha filha porque não acordava. Ela foi submetida a diversos tratamentos até ter um peso considerado ideal (2.5 Kg). Não posso dizer ao certo a que tipos de tratamentos porque nessa altura eu já estava doente de todo e, por isso, não era capaz de dar apoio ao meu próprio bebé e as coisas que me diziam resumia-se a: “Estamos a tentar recuperá-la”, “(…)vamos tentar acorda-la(…)”, “Ela tem de comer para alcançar o peso que se pretende”. Ela acabou por acordar, finalmente, e passados alguns dias regressámos a casa. Contudo, ela não parava de chorar e como ela não se acalmava tive que ir a uma pediatra que, rapidamente, se apercebeu  que ela tinha uma hérnia. Então, disse-me que a criança tinha que ser baptizada o mais rápido possível, de modo a ser levada para o Hospital Maria Pia, no Porto, para ser operada com urgência. No hospital, disseram-me que ela tinha 24h de vida. Para além de, eu já estar muito doente e preocupada (porque desde que nascera ainda não tínhamos passado um único dia em que pudéssemos dizer “Ela nasceu saudável, vai correr tudo bem”), quando me disseram isso senti-me tão mal, que foi como se de repente o mundo se abatesse, mais uma vez, a meus pés e eu fosse incapaz de fazer o que quer que fosse para o tentar impedir. Desde então, nunca mais fui a mesma pessoa. Comecei a ter crises perante situações com maior facilidade e frequência, passei a ser uma pessoa muito nervosa e stressada, com ataques compulsivos para comer. Fiquei de tal modo que me internaram, contra a minha vontade, na Casa de Saúde de Bom Jesus, em Braga. Fiquei lá nem uma semana. O ambiente era tão perturbador, demasiado calmo e silencioso por vezes, que chegava a transmitir tristeza e solidão, enquanto que noutras vezes estávamos perante situações de sofrimento e angústia, ao assistir ao comportamento daqueles que lá estavam, aparentemente pela mesma razão que nós. Independentemente de sermos “loucos” ou não, todos os dias ao anoitecer os pacientes começavam a correr com o objectivo de fugir dos enfermeiros que nos tentavam apanhar para nos dar drogas e mais drogas para ficarmos inconscientes e aqueles que não cediam facilmente eram acorrentados às camas até se deixarem vencer.
Tentei suicidar-me. A culpa não fora minha, mas sim em grande parte da medicação que era tão forte ao ponto de me provocar ataques epilépticos. Quem estivesse na minha situação, certamente pensaria o mesmo e para quem o teve e ultrapassou isto com um sorriso no rosto então devo de dizer que fico surpreendida por ainda existir pessoas tão fortes quer a nível físico, quer a nível psicológico, pois eu não o aguentei. Fingi estar boa e pedi aos meus pais e marido que assinassem o termo de responsabilidade, de modo a eu sair daquele inferno. Como era de esperar, acharam que eu estava boa e tiraram-me todos os medicamentos que andava a tomar (eram mais de 8 medicamentos diferentes que tomava por dia). Piorei tanto que cheguei ao ponto de suplicar por morte, cheguei ao ponto de gritar, perante a minha filha, que nessa altura já andava no 1º ciclo, para me deixar sozinha.
Um colega do meu pai aconselhou-me a consultar uma Parapsicólogo que me ajudou a desintoxicar o organismo de toda a porcaria que me haviam dado durante todo aquele tempo. Posteriormente, comecei a tomar medicamentos do herbanário e passado 1 mês e meio comecei a ter sinais de melhoria, mas uma coisa é certa: Nunca fui e tenho a noção de que nunca voltarei a ser a mesma pessoa.”


4.      Quais os sintomas que sentiu inicialmente e os que ainda continua a sentir?
“Tal como já referi, dores de cabeça intensas, choro frequente, não conseguia dormir, tinha crises e ataques compulsivos para comer e, ainda hoje, me deparo praticamente com todos estes sintomas. Para além disto, a quantidade exagerada de medicamentos que cheguei a tomar, fez com que eu tivesse ataques epilépticos, mas actualmente não tenho tido nenhum, pois já me habituei a uma extrema redução da quantidade de medicamentos.”


5.      Como se sente quando revela este transtorno a alguém?
“Sinto-me muito triste e especialmente desiludida comigo mesma por ter chegado a este ponto, até porque sinto que independentemente do que aconteça nunca serei capaz de recuperar completamente e, como tal, irei continuar sempre a ter recaídas atrás de recaídas e isso deixa-me seriamente frustrada pois sou demasiado fraca até mesmo para dizer para mim mesmo “Basta! Tu consegues” porque a verdade é que não consigo.”

6.      Como é que o seu corpo reagiu à depressão?
“Engordei, definitivamente. E a medicação fazia com que me sentisse muito enjoada e tonta.”


7.      De que modo a sua vida mudou desde que começou a ser depressiva?
“A minha própria maneira de ser, a forma como encaro a vida e o olhar das pessoas. Sinto que me condenam, que me julgam maluca por ser depressiva e ter estado internada na Casa de Saúde, o que não é verdade. O facto de ter esta ideia, assim que enfrento o olhar das pessoas leva-me a crer que muitos dos comportamentos que tenho tido são errados por interpretar mal aquilo que elas dizem.”


8.      De que modo a depressão afectou o seu relacionamento com a família, com a sociedade e até consigo própria?
“Afectou em muito o relacionamento que eu tinha, por exemplo, com os meus pais. Tanto eu como os eles, sentiamo-nos mal porque eu não tinha dinheiro para recorrer a médicos particulares e, como tal, andava-lhes sempre a pedir ajuda económica. Sentia-me revoltade e triste cada vez que tinha de me rebaixar ao ponto de fazer um pedido desses, mas não tinha outra opção. Para além disso, todos aqueles que me rodeavam revelaram-se amigos falsos, pessoas despreocupadas que nem se quer se deram ao trabalho de me perguntar a mim, ao meu marido ou até mesmo aos meus pais se eu iria melhorar. Penso que foi demasiado para todos eles e então, os únicos que permaneceram foram os meus pais e, especialmente, o meu marido.”


9.      O seu humor varia muito ou está constantemente em baixo?
“O meu humor varia muito até porque interpreto, na maior parte das vezes, de uma forma errada a mensagem que as pessoas prentedem me transmitir, então, tanto estou bem como de repente me sinto triste, quer pelas “avaliações” que faço, quer por nenhuma razão aparente.

10. Na sua opinião, qual é o papel do stress na depressão?
“Quem passa por depressão enfrenta, esencialmente, momentos de muito nervosismo e stress no dia-a-dia, tanto o trabalho e nas relações que estabelecemos com as outras pessoas, como na própria lida doméstica. Por isso, é motivo para dizer que o stress é um dos principais factores que provocam a depressão.” 

11.  Realiza algum tipo de tratamento?
“Tomo medicamentos e frequento uma diversidade de especialistas: psicólogo, psiquiatra e nutricionista.” 

12.  Psicoterapia ou medicação, qual o melhor tratamento? Porquê?
“Ambos os tratamentos são fundamentais. Os medicamentos porque são eles que fazem com que o nosso organismo reaja à depressão, aos sintomas que a constituem (por assim dizer), enquanto que, a psicoterapia permite-nos falar de problemas e sentimentos que não conseguímos revelar até mesmo aos que nos são mais próximos, é algo que nos deixa de certo modo aliviada e bem connosco próprios”

13.  Que tipo de problemas costuma observar no tratamento com medicamentos?
“Tonturas, enjoos, desmaios, dores no estômago, aumento da massa corporal, etc.”

14.  Como vê o seu futuro a partir deste momento?
“Sinto-me de tal modo em baixo que não tenho qualquer ambição ou força para alcançar qualquer objectivo que seja. Não tenho vontade de sair de casa, de me distrair, de fazer aquilo a que estava habituada a fazer. Sinto que nunca mais serei a mesma pessoa, por isso, não consigo imaginar um futuro diferente daquele em que não seja eu com depressão.”


15.  Tem alguma sugestão/conselho que considera importante dizer às pessoas que estejam a passar pela mesma situação?
“Para aqueles que se encontram na mesma situação, espero que tentem reagir, que sejam fortes e não se deixem vencer tão facilmente pelas adversidades da vida. Que não percam os seus sonhos, tal como eu perdi os meus.”